O comboio de tempestades que atingiu Portugal entre janeiro e fevereiro de 2026 gerou o maior evento de perdas da história do mercado segurador nacional. Com mais de 210 mil sinistros e cerca de € 1,3 mil milhões em indemnizações, este episódio climático extremo expõe como funcionam os mecanismos de proteção financeira do setor — e deixa importantes lições para quem trabalha na peritagem de danos.
O papel do resseguro nas tempestades de 2026
Perante números desta magnitude, uma questão é legítima: como não colapsou o mercado segurador português? A resposta está no resseguro — o mecanismo através do qual as seguradoras transferem parte do risco para o mercado internacional. Segundo Gabriel Bernardino, presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), apenas cerca de 9% das indemnizações totais serão suportadas pelas seguradoras que operam em Portugal. Os restantes 91% são absorvidos pelos resseguradores internacionais.
Este padrão de distribuição de risco não é novo, mas foi esclarecedor para o público em geral. O resseguro funciona como um amortecedor de choques: ao transferir a maior parte da exposição para estruturas internacionais com maior capacidade de capital, as seguradoras locais preservam a sua solvência e capacidade operacional — ainda que com impacto significativo nos resultados de 2026.
Impacto nos resultados das seguradoras
Apesar da solidez do mercado, Gabriel Bernardino reconheceu abertamente que algumas seguradoras poderão encerrar o ano com resultados próximos de zero ou mesmo negativos devido ao impacto direto das indemnizações de tempestade. Isto é importante para peritos compreender: não significa colapso do setor, mas sim que o saldo final de várias operadoras será pesadamente afetado por este único evento.
Por isso, é compreensível que nos meses seguintes tenha havido maiores restrições na aceitação de novos riscos de ramos sensíveis a fenómenos climáticos, e maior escrutínio nas avaliações de danos. As seguradoras precisavam de dar tempo para absorver o impacto antes de normalizar operações. O trabalho do perito ganhou, assim, ainda maior relevância — a qualidade e precisão da avaliação de danos tornam-se críticas para gestão eficiente dos sinistros.
A lacuna de cobertura: o lado mais preocupante
Um dado que emerge da análise do evento é particularmente preocupante: cerca de metade das habitações atingidas não possuía cobertura de seguro para catástrofes naturais. Situação similar ocorreu entre pequenos comércios e indústrias. Esta realidade coloca em perspetiva o valor real da peritagem — um seguro sem cobertura não gera trabalho de avaliação de danos, mas deixa proprietários e empresas desprotegidos.
Para veículos automóveis, o padrão é semelhante. Muitos proprietários subscrevem apenas o seguro obrigatório (responsabilidade civil), sem cobertura de danos próprios que inclua fenómenos da natureza. Uma inundação, queda de árvore ou granizo não são cobertos por esse seguro base — o proprietário fica desprotegido e o perito não é acionado.
Qual a relevância para peritos de automóveis?
A dimensão deste evento traz implicações operacionais diretas para quem trabalha em peritagem automóvel:
Fluxo de trabalho acelerado. Num período de pico de sinistros climáticos, as seguradoras têm de gerir volumes excecionais. Prazos de resposta podem ser comprimidos, e o perito pode receber com maior frequência casos com documentação incompleta ou fotografias de má qualidade, exigindo maior agilidade.
Pressão na precisão. Quando as indemnizações agregadas atingem valores desta magnitude, as seguradoras aumentam o escrutínio sobre a qualidade das peritagens. Um relatório mal fundamentado ou com inconsistências não passa despercebido — a triagem torna-se mais rigorosa.
Diferenciação entre danos de tempestade e colisão. É frequente que um veículo sofra danos por tempestade durante um período onde também circula e colide. Determinar com precisão qual dano é atribuível a cada causa é essencial, pois a cobertura e a indenização diferem consoante a origem do sinistro.
Impacto nas oficinas. O volume massivo de reparações simultâneas em 2026 sobrecarregou a capacidade das oficinas durante meses. Peças tornaram-se escassas, mão-de-obra especializada igualmente escassa e mais cara. Este contexto constrange o trabalho do perito, que precisa de basear as estimativas de custo em cenários de mercado radicalmente alterados.
Lições das tempestades de 2026 para o futuro
A ASF anunciou que publicará nas próximas semanas um relatório sobre as lições aprendidas na gestão dos sinistros de tempestade, com recomendações para fortalecer a preparação do mercado. Um ponto de reflexão já é evidente: Portugal ainda precisa de uma cultura mais sistemática de análise pós-evento.
Gabriel Bernardino sublinhou que “Portugal ainda não tem o hábito de analisar o que funcionou bem e o que pode ser melhorado para nos prepararmos para situações futuras”. A implicação é clara — não é uma questão de se, mas de quando, voltar-se-ão a deparar com eventos deste tipo.
Para peritos, isto significa que a expertise adquirida durante 2026 — na gestão de picos de sinistros, na documentação de danos extremos, na comunicação com proprietários angustiados — é um ativo profissional valioso que tenderá a ser solicitado novamente.
O contexto regulatório em mudança
Além das lições operacionais, o evento expõe uma lacuna regulatória significativa: a baixa cobertura contra riscos climáticos e sísmicos. Gabriel Bernardino reforçou que apenas 19% das edificações em Portugal possuem cobertura contra riscos sísmicos, apesar da exposição geográfica do país. Para catástrofes naturais climáticas, o cenário é similar.
A ASF propôs ao governo português a criação de um sistema integrado de proteção contra catástrofes, que incluiria um fundo público-privado para absorver perdas extremas que excedam a capacidade de resseguro. O modelo seria similar ao de outros países europeus, onde o Estado partilha o risco junto com seguradoras e resseguradores — uma abordagem que reconhece que certos eventos extrapolam a capacidade do mercado privado isoladamente.
Esta mudança regulatória, se aprovada, alteraria significativamente o panorama da peritagem de danos. Coberturas obrigatórias para fenómenos naturais aumentariam dramaticamente o volume de sinistros passíveis de indenização, e por conseguinte, o trabalho de avaliação.
Conclusão
Os números de 2026 — 210 mil sinistros, € 1,3 bilhão em danos — cristalizam uma verdade que o setor segurador português conhece há décadas: a resiliência financeira depende de estruturas de resseguro robustas, e a verdadeira proteção das famílias e empresas depende de uma cultura de seguro muito mais abrangente do que a atual.
Para o perito, este episódio é simultaneamente um reforço da importância do trabalho — demonstra que o seguro funciona porque tem profissionais capazes de avaliar danos com rigor — e um lembrete de que há milhões de portugueses desprotegidos que, quando atingidos por tempestades, não contam com uma peritagem e uma indenização.




