Sinistralidade automóvel desce, mas custo do sinistro sobe

Sinistralidade automóvel em Portugal

O ramo Automóvel manteve, em 2025, a trajetória de crescimento dos últimos anos, com mais de 9,3 milhões de veículos seguros em Portugal, segundo dados divulgados pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS). O número de processos de sinistro desceu ligeiramente, mas o valor médio pago por cada um subiu de forma expressiva — uma tendência que interessa de perto a quem avalia danos e gere indemnizações.

Do lado da produção, a APS destaca que o número de veículos seguros aumentou 2,3%, enquanto as coberturas de danos próprios — o segmento que cobre choque, colisão ou furto — cresceram 6,3%. O prémio médio emitido por apólice fixou-se nos 302,66 euros.

Do lado dos sinistros, foram abertos cerca de 961 mil processos em 2025, menos 1,3% do que no ano anterior, invertendo a tendência de subida da frequência que se vinha a registar. Ainda assim, os montantes pagos por sinistros aumentaram 5,3%, ultrapassando os 1,7 mil milhões de euros.

Menos acidentes, sinistros mais caros — e o risco de quem circula sem seguro

O dado que mais interessa à peritagem está no valor médio pago por processo: subiu de 1.671 euros em 2024 para 1.784 euros em 2025, um aumento de 6,8%. É um movimento que contraria a lógica imediata de menos acidentes, menos custo — a frequência desce, mas a severidade média sobe, refletindo o encarecimento de peças, de mão de obra especializada e a crescente complexidade eletrónica dos veículos, com sensores e sistemas de assistência à condução (ADAS) cada vez mais presentes nas reparações. Para o perito, este contexto reforça a importância de uma avaliação de danos rigorosa, capaz de distinguir com precisão o que é reparação e o que já configura perda total.

A este cenário soma-se um risco adicional identificado pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF): cerca de 121 mil veículos circulam atualmente em Portugal sem o seguro obrigatório de responsabilidade civil, um rácio de infração de 1,33% em 2025 e em tendência de subida, segundo o estudo “Perfil do Condutor sem Seguro”. O fenómeno concentra-se nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto e em zonas suburbanas com forte mobilidade pendular, envolvendo sobretudo veículos ligeiros de passageiros.

Quando um dos intervenientes num acidente não tem seguro válido, a responsabilidade pela indemnização recai sobre o Fundo de Garantia Automóvel (FGA), que só entre 2021 e 2025 pagou mais de 53 milhões de euros a vítimas nestas circunstâncias e que registou 2.709 novos processos até ao início de julho de 2026 — mais 15% do que no período homólogo. Nestes casos, a peritagem e a reconstituição do acidente ganham peso acrescido, já que servem de base à determinação de responsabilidades e ao processo de ressarcimento junto do Fundo.

O que fica para o setor

O retrato que emerge de 2025 é o de um mercado automóvel mais amplo — mais veículos seguros, mais coberturas de danos próprios — mas também mais exposto a sinistros de maior valor e a um número crescente de condutores sem cobertura obrigatória. Para quem trabalha na avaliação de danos e na gestão de sinistros, a combinação destes dois fatores reforça a necessidade de peritagens tecnicamente sólidas, sobretudo nos casos que envolvem o Fundo de Garantia Automóvel, onde o rigor da reconstituição pesa diretamente no desfecho do processo.

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