Há notícias que se leem com uma certa frieza técnica, e há outras que nos tocam um pouco mais de perto. Esta é das segundas. Depois de décadas a ver Ibizas e Leons pelas nossas estradas — muitos deles ainda hoje em oficinas e processos de peritagem —, soube-se esta semana que a Volkswagen pondera encerrar a marca Seat o mais tardar até final de 2029.
A informação foi avançada pelo semanário económico alemão *WirtschaftsWoche* e confirmada, entretanto, por vários órgãos de imprensa portugueses e espanhóis — do [Jornal de Negócios](https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/automovel/detalhe/espanhola-seat-tem-os-dias-contados-volkswagen-vai-fechar-marca-em-2029) à Renascença, passando pelo ECO, que cita ainda o espanhol *Expansión*. A proposta consta de um documento confidencial preparado para o conselho de supervisão da Volkswagen, que se reúne já esta sexta-feira, dia 4 de setembro, para discutir o plano. A própria Seat já veio a público dizer que “não foi tomada nenhuma decisão a esse respeito” — por isso, vale a pena ler isto com a devida reserva: é um plano, não um facto consumado.
O que está em cima da mesa é concentrar recursos na Cupra, marca que nasceu dentro da própria Seat e que só se tornou independente em 2018. A decisão surge integrada num pacote de reestruturação muito maior, que poderá envolver o corte de até 100 mil postos de trabalho em todo o grupo e o encerramento de quatro fábricas na Alemanha — Hannover, Emden e Zwickau, além da unidade da Audi em Neckarsulm —, com o objetivo de poupar 11 mil milhões de euros até ao final da década. A Autoeuropa, em Palmela, não consta, para já, entre as fábricas em risco.
Uma marca com 76 anos e um Ibiza que marcou gerações
Vale a pena parar um pouco na história antes de falar do que isto significa para quem avalia carros. A Seat nasceu em 1950, para pôr Espanha sobre rodas, e a Volkswagen assumiu o seu controlo em 1986. Ao longo destas sete décadas e meia, a marca produziu mais de 20,5 milhões de veículos e deixou modelos que ficaram gravados na memória de várias gerações — o Marbella, o Ibiza, o Leon.
E se há um modelo que resume o que a Seat sempre soube fazer bem, é mesmo o Ibiza. Lançado em 1984, com uma das versões com motor desenvolvido em parceria com a Porsche e desenho de Giorgetto Giugiaro — o mesmo autor do Volkswagen Golf —, tornou-se rapidamente o carro mais vendido da história da marca, com mais de 6 milhões de unidades entregues ao longo de cinco gerações. A segunda geração, conhecida entre os entusiastas pelo código de chassis **”6K”** (1993-2002), foi particularmente marcante: vendeu mais de 1,5 milhões de unidades, foi o primeiro modelo construído na fábrica de Martorell e venceu por três anos consecutivos (1996, 1997 e 1998) o Campeonato do Mundo de Ralis na categoria F2. Não foi sorte nem nostalgia que sustentou este sucesso — foi a combinação de robustez mecânica, boa relação preço-qualidade e uma fiabilidade que, ainda hoje, se reflete em muitos “6K” a circular décadas depois de terem saído da fábrica.
O que isto significa, na prática, para quem avalia estes carros
É aqui que entra o nosso trabalho. Historicamente, quando uma marca chega ao fim, o mercado antecipa-se: a incerteza, rede de assistência e sobretudo, disponibilidade futura de peças tende a acelerar a desvalorização dos veículos já em circulação — mesmo com o compromisso, já anunciado, de assegurar apoio pós-venda aos atuais proprietários.
Para quem gere sinistros ou avalia danos, este é exatamente o tipo de fator que pesa na balança entre reparação e perda total: peças mais escassas custam mais e demoram mais a chegar, o que pode empurrar um carro que antes valia a pena reparar para o lado da perda total. Há ainda um ponto a acompanhar nos próximos anos — a eventual conversão de concessionários e oficinas Seat para a rede Cupra.
Vale a pena acompanhar
Nada disto está fechado — falta o aval do conselho de supervisão e, mesmo que avance, o processo estende-se até 2029. Mas para quem lida diariamente com avaliações de veículos, é um daqueles casos em que compensa não esperar pela decisão final para começar a olhar com mais atenção para o valor real destes carros no mercado.




