Montepio desiste da venda da Lusitânia

Lusitânia Seguros

A Associação Mutualista Montepio Geral desistiu da venda da Lusitânia Vida e a Lusitânia Seguros, avançou o Jornal Económico. O processo, que chegou a envolver negociações avançadas com a seguradora francesa CNP Assurances, acabou por não resultar em qualquer proposta de compra.

O interesse de venda tinha sido tornado público em março, quando a agência Bloomberg noticiou que o Montepio contratara o banco francês Société Générale para sondar o mercado sobre a alienação parcial ou total das duas seguradoras. Em abril, o site Mergermarket avançou que a CNP Assurances estaria entre os potenciais compradores. Contudo, após a notícia da desistência ser publicada, a Mutualista Montepio veio esclarecer que nunca contratou a Société Générale e que a CNP não chegou a apresentar qualquer proposta formal de compra.

Segundo fontes citadas pelo Jornal Económico, o principal obstáculo à concretização do negócio prendeu-se com a oposição a um eventual acordo de bancassurance — a venda de seguros ao balcão do banco — que uma transação com um grupo estrangeiro poderia implicar. No fundo, todo o processo terá servido apenas para aferir o valor de mercado das duas companhias, sem intenção efetiva de fechar negócio.

Em janeiro, na tomada de posse dos órgãos associativos para o mandato 2026-2029, o presidente da Associação Mutualista, Virgílio Lima, tinha admitido a possibilidade de “parcerias de desenvolvimento” nas seguradoras, incluindo a venda de uma posição maioritária do capital. As duas companhias registaram, em 2025, uma quebra conjunta de 2,8% nos prémios, para 412 milhões de euros, descendo para o 11.º lugar no ranking dos grupos seguradores em Portugal.

O que significa para os peritos

Para quem trabalha do lado da peritagem e da gestão de sinistros, a estabilidade acionista de uma seguradora não é um detalhe menor. Uma mudança de controlo — sobretudo para um grupo internacional sem presença prévia no mercado português — traduz-se normalmente em revisão de processos internos, novos sistemas de gestão de sinistros e, por vezes, alteração das equipas e critérios de análise de danos com que peritos e oficinas já estão familiarizados.

Com a venda afastada, a Lusitânia mantém, para já, a sua estrutura e os seus canais de relacionamento com peritos e mediadores inalterados. Isto é particularmente relevante num contexto em que o setor segurador português tem vivido um período de forte concentração — veja-se a integração da Liberty Seguros na Generali Tranquilidade — que tem alterado significativamente os interlocutores e procedimentos com que os profissionais de peritagem lidam no dia a dia.

Ainda assim, o facto de a Lusitânia Vida ter notificado recentemente a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) e a EIOPA da intenção de operar em regime de livre prestação de serviços em 16 Estados-membros sugere que a empresa continua a explorar vias de crescimento e internacionalização, ainda que fora do quadro de uma venda de capital.

O que fica para o setor

O episódio ilustra bem a diferença entre um interesse de mercado explorado publicamente e um negócio efetivamente concretizado. Para o setor segurador — e para quem depende da sua estabilidade operacional, como peritos e gestores de sinistros — a manutenção do statu quo na Lusitânia é, para já, sinónimo de continuidade nos processos já conhecidos.

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